No ano seguinte, o Clube começou a ser gerido
pelo “capitão” do Nespereira, Hêrnani Andrade.
Hêrnani era uma pessoa muito calma, de poucas
falas, mas muito concentrado. Era- e penso que ainda o é!- uma pessoa muito
ambiciosa. Ele pegou no Nespereira na 1ª
Divisão Distrital, para jogar contra equipas fortíssimas como Mangualde,
Souselo e Mortágua, e, quis montar uma equipa forte a nível distrital, indo
buscar o Prof. Evaristo para auxiliar Mário João. Foi buscar jogadores como o
Canário e Teles entre outros que ele conseguiu manter da época passada,
aproveitando também muitos dos juniores que tinham passado a seniores.
O Nespereira fez uma época tranqüila,
aproveitando muito bem do fator casa, acabando em 7º lugar, na primeira época
que o Nespereira jogou na 1ª Divisão Distrital. Este ano ficou marcado pela
proeminência do central Canário; os golos de Teles, festejados com o seu típico
salto mortal, que repetiu tantas vezes; assim como a precisão de Marcelo.
No final da época, apesar do bom ambiente que o clube vivia, o
Nespereira perdeu, na época seguinte (1996/97), importantes jogadores, como
Marcelo, o uruguaio Da Rosa, e também perdeu o treinador Mário João.
Antes de começar a época, Hernâni e a Direção,
deram conta de que havia aspectos do clube, que necessitavam de mudar, e então,
ele decidiu aumentar o terreno de jogo, e construiu a bancada que existe
atualmente, junto com o salão de bailes.
Hernâni Andrade foi talvez o presidente mais
preocupado não só em gerir aquilo que tinha em mãos, mas também em melhorar as
coisas que já existiam. Por isso, nesse ano, ele melhorou o aspecto do bar,
pondo umas mesas de ping-pong no salão de baile, que durante a época de Verão
eram geridas por duas simpáticas raparigas que tomavam conta do bar, de maneira
muito competente: Ana Sofia Teles e Cristina “Vilarinho” Pereira.
Aí, Hernâni Andrade, que foi eleito novamente,
foi buscar um antigo símbolo do clube, para colmatar a saída do treinador Mário
João: Magalhães! Magalhães foi treinador do Alvarenga, onde travou conhecimento
com Hernâni Andrade, e seu irmão também foi guarda-redes do Nespereira, na
década de 80, Magalhães era uma pessoa
extremamente calma, inteligente e muito metódico. Dava muita importância aos
lances de bola parada, que nessa época tornou-se no forte do clube.
Nessa época (1996/97), o jogo de apresentação
do Nespereira, era contra uma equipa que estava na 1ª Divisão Nacional, que
tinha subido recentemente, chamada
Felgueiras FC .
O Felgueiras era orientado então, por um
treinador na altura desconhecido, chamado Jorge Jesus, e trouxe ao Olival
jogadores famosos da altura, como Avelino, Bozinovsky,Acácio (que é natural de
Alvarenga- Arouca, freguesia vizinha) Lopes, Baroni, Rosário, Kristic,Lopes da
Silva, Clint, entre outros. Não posso precisar quanto acabou, o jogo, mas
lembro-me que o Felgueiras ganhou-o, mas não com grande margem. No final do
jogo, foi aquela corrida para os balneários, para pedirem autógrafos aos
jogadores do Felgueiras.
O Nespereira apresentou, na minha opinião, a equipa
mais forte de sempre, com a continuidade de João, Canário, Marcos, Zé João,
Hernâni, Skif, Teles, e a “cimentação” de alguns ex-juniores como é o caso de
Luís Semblano, Ruizito, Nicho e Pedro Semblano, como elementos essenciais para
a equipa.
Primeira vez, que o Nespereira iria encontrar
dois adversários concelhios de grande peso: o Cinfães, que tinha descido da 3ª
Nacional, e vivia sempre nessa oscilação, num verdadeiro “sobe e desce”, e, o
Souselo que era uma equipa muito forte, sempre candidata a subida.
Nessa época, Magalhães iniciou a época meio
trémula, não conseguindo encaixar um esquema tático que agradasse aos adeptos e
à própria diretoria, e foi exatamente num dos “derbys”, contra o Cinfães, no Estádio
Cerveira Pinto, ainda pelado, que o destino de Magalhães iria ser decidido. O
Nespereira enfrentou o Cinfães de forma corajosa, mas não teve pernas para o
talento, nem de Marcelo, nem de Tártaro, que desfizeram a equipa nespereirense,
e, assim fizeram o Cinfães vencer por 3-0. Nessa mesma semana, Magalhães seria
demitido do cargo de treinador, apesar das “más-línguas” contarem que a sua
demissão foi fruto do fato do mesmo remeter Hernâni para o banco de suplentes!
A escolha seguinte para treinar foi a de
António Salazar Galhardo, que voltou ao cargo de treinador após 10 anos de
interregno de ligação com o Nespereira, visto que ele treinava as camadas
jovens do CD Cinfães.
António Salazar era um treinador muito próximo
dos jogadores, mas muito exigente, e com alguma rigidez, embora não fosse
considerado simpático!
A sua vinda veio equilibrar um pouco mais as
contas, e veio perrmitir ao clube, mais alguma confiança, e esperança nas
táticas utilizadas. O rigor de António Salazar veio trazer um novo fôlego à
equipa!
Jogo inesquecível, foi o da segunda volta, em
que, o Cinfães visitou o Olival. A última vez que o Nespereira tinha se cruzado
com o Cinfães, em jogos oficiais pelo campeonato, foi em 1979/80, quando o Cinfães subiu à 2ª
Divisão Distrital, retornando a este
“derby” 17 anos depois. O campo estava lotado de público, que cercava o terreno
do jogo, com uma moldura humana fenomenal, divididos entre o lado da bancada
sendo ocupado pelos adeptos do Nespereira FC, e o lado dos “bancos” de
suplentes, era ocupado pelos adeptos do Cinfães.
Recordo-me de chegar ao Campo, e o jogo tinha acabado de iniciar, e o
Nespereira apresentava este “onze”: João; Rui Bateira, Marcos, Hernâni,
Canário; Quim, Paulo Moura, Vítor Andrade, António João, Teles e Nuno Pinto. O
Nespereira iniciou bem o jogo, marcando o primeiro golo de livre cedo, por
Paulo Moura,um verdadeiro nº 10, primo do nespereirense Carlos “Pinheiro”, que
foi “descoberto” num torneio juntamente com o seu irmão, Marco, um central
muito eficaz, e o seu primo António João, que era de uma velocidade tremenda. A
velocidade de António João era tanta, que um dia, num dos treinos, ele começou
a correr em direção à linha lateral para tentar pegar a bola ainda dentro do campo,
mas a sua alta velocidade o fez ir contra o muro de blocos de cimento,
baixinho, que ele virou completamente, caindo do outro lado.
Voltando ao Paulo Moura, este era um médio
muito preciso e inteligente, e um dos
melhores especialistas em bolas paradas que passou por Nespereira. O Nespereira
marcou cedo o primeiro golo, mas logo de seguida, num novo livre, Nuno Carlos
marcou o 2-0, levando o público ao êxtase. Ao intervalo, o Nespereira ganhava
por 2-0. Mas, após o intervalo, o Cinfães voltou mais decidido, e cedo marcou o
1-2, num pontapé de canto, em que João não conseguiu defender o cabeceamento do
atacante cinfanense. A maneira de jogar do Nespereira começou a fraquejar, mas
nunca desistiram, embora a pressão do Cinfães fosse imensa. O público
cinfanense fazia pressão sobre o “bandeirinha”, tendo na altura que, o diretor
Cláudio Oliveira, apelar ao sistema interno de som, para pedir aos adeptos,
alguma contenção na maneira de se expressarem. O jogo estava quase chegando ao
fim, quando o Cinfães, de livre, através de Tartáro, conseguiu evitar que o
Cinfães saísse dali derrotado, empatando assim o jogo, que ficou marcado por
ser a melhor receita da bilheteira de sempre do Nespereira.
Durante um período, o treinador António
Salazar não pôde dar os treinos, com Hernâni Andrade a orientar várias vezes o
treino, e de repente, um dia, este aparece no treino para informar que, não
poderia mais continuar a assumir o cargo de treinador, porque foi convidado
pela Federação de Bombeiros, para assumir o cargo de Coordenador- Geral dos
Bombeiros do distrito de Aveiro, tendo sido muito acarinhado pelos jogadores.
Então, para substituir o “Professor”, veio o
Cabral.
Cabral foi indicado pelo ex-treinador do
Nespereira, Mário João, e era um funcionário da Petrogal. Era um senhor meio
mulato, com um ar meio cínico, e na terça-feira de treino, e ele já levava
referenciado por Mário João, o Varito, que ele disse logo de caras:
- Tu és o Varito? O Mário João falou muito de
você! Mas avisou-me para ter cuidado contigo, porque às vezes gostas de te
portar mal.- Os dois riram-se, com o Varito dando aquelas gargalhadas interrompidas,
típica dele.
Varito, é o filho do Sr. Joaquim do Leopoldo,
que também chegou a jogar futebol no Nespereira, em tempos mais idos. Jogou no
Cinfães, e depois optou pelo Nespereira, sendo sempre um jogador muito rápido e
explosivo, mas às vezes muito indisciplinado.
Cabral com o seu sotaque tipicamente africano,
começou a treinar de maneira dura, e um pormenor dele que me recordo, era ele
para chamar o Carlos Bateira, que era mais conhecido por Bateira, ele
demonstrou alguma dificuldade, trocando sempre o nome dele por “Bandeira”.
O primeiro jogo de Cabral foi uma deslocação à
Cambres (Lamego), para defrontar a equipa local. Mas as coisas não correram
muito bem para ele, e uma das modificações que ele fez que mais me ficaram
marcadas, foi a inserção de Luís Semblano, que jogava a médio ofensivo, como
lateral direito, e a inserção de Nuno Cardoso, que jogou a médio centro. O
Nespereira perdeu por 4-1. No treino seguinte de terça-feira, que geralmente
era de recuperação física, Cabral fechou o plantel durante 30 minutos, no
balneário, e deu um sermão tremendo nos jogadores, pelo resultado em Cambres.
Apesar de não fazer parte da equipa, lembro-me
que estava lá para treinar, e então, calçamos todos as sapatilhas, e subimos as
escadas de acesso ao campo. Depois lá, ele explicou que queria que nós
corrêssemos encostado pela parte da bancada, na direção da Feira Franca, e
depois quando chegássemos ao final da linha, cruzaríamos na diagonal,
atravessando o campo todo, até ao canto oposto do lado do caminho do Borralhal,
seguindo depois pela linha de fundo, do lado do caminho do Borralhal, em
direção à entrada, chegando ao canto, e fazendo a diagonal, atravessando o
campo novamente. Este trajeto foi repetido durante 60 minutos aproximadamente,
e me lembro que foi talvez um dos treinos mais cansativos que já vivenciei e
não fui apenas eu, que me cansei, pois vi muitos dos jogadores demonstrando
cansaço extremo. Para finalizar, o treinador, ainda pôs todo o mundo a subir as
escadas da bancada, tendo alguns que aí, já nem conseguiram subir, pela dor nas
pernas.
Inesquecivel, também nessa época eram os
lançamentos longos feitos pelo Celso, que eram quase meio-golo. Celso é filho do Sr. Fonseca de Vila Viçosa, e fez o
seu trajeto de formação futebolística no Boavista FC. Era avançado, bem
preparado fisicamente, e com um excelente pontapé.
O treinador Cabral era um “tipo porreiro”, mas
muito genioso. E demonstrou a sua geniosidade, quando numa terça-feira, Marco,
irmão de Paulo Moura faltou ao treino, e depois reapareceu na quinta-feira.
O plantel estava todo equipado, preparado para
mais um treino, quando Cabral entrou no balneário seriamente, preparava-se para
dar as indicações de treino, olhou para
o Marco e lhe perguntou:
- Foi você que faltou ao último treino?
Marco, que era uma pessoa de poucas falas,
demonstrando sempre alguma timidez, olhou surpreso para o “mister”, e
respondeu:
- Sim. Fui eu!
Então, mudando completamente o semblante,
levantou o tom de voz, e sem ouvir a justificação de Marco, virou-se para o
mesmo, esticou o braço em direção a porta, e disse:
- Então, podes desiquipar-te, porque jogador
que falta ao treino não é opção para mim!
O Marco não respondeu, apenas baixou a cabeça,
num primeiro momento, e depois abanou –a negativamente, mas sem sequer discutir
a decisão do treinador. A reação do plantel inteiro foi de surpresa total, e de
espanto!
Cabral continuou na orientação do clube até ao
final da época, mas, apenas deu para a manutenção, aproveitando bem o fator
casa, e dos outros clubes estarem habituados a jogarem em terrenos bem maiores,
não perdendo nenhum jogo em casa, até o final da época. Nessa época, o
Nespereira terminou em 8º lugar, perdendo apenas em casa contra o Nelas, ainda
sob a orientação de António Salazar, e empatando 3 jogos em casa. O Nespereira
apenas venceu fora contra o Silgueiros.
A equipa do Nespereira FC, ainda foi nessa
época deslocar-se a Suiça, para participar de um torneio de futebol, que acabou
ganhando.
Mas, a Direção do Nespereira FC, demonstrou
que não era apenas o futebol que existia, iniciando assim uma época de bailes,
durante aqueles invernos frios e chuvosos. Aproveitando o excelente salão do
clube, a Direção gerida por Hernâni Andrade, começou a fazer todos os sábados
de noite- e nos domingos de tarde, quando o Nespereira jogava fora!- bailes,
onde tocavam dois excelentes grupos: o “Sons do Ardena”, que era constituído
por elementos nespereirenses, Lino de Paradela (vocalista), Quim do Aleixo
(guitarrista), Daniel Botelho (baixo), Hermínio Tavares (teclados) e Quim
Botelho (bateria); e também pelo grupo de Vilar de Arca , “Gerasom”. Os dois
grupos alternavam as suas atuações entre si.
Geralmente, o povo nespereirense saia dos
cafés, e quando viam os holofotes acesos, se dirigiam para o Campo do Olival,
para ir ao baile. Chegando pela porta lateral, as pessoas encontravam
geralmente muitas mulheres dentro do salão, sentadas naqueles bancos compridos,
e os homens tendenciosamente, ficavam na porta, esperando ver atentamente quem
eram as “miúdas” que estavam presentes, para avaliar se podiam pagar a entrada
para o baile. Os bailes, geralmente, estavam cheios e em alturas festivas, como
Natal e Carnaval, o salão não tinha espaço para tantos pares de dança. Víamos
as pessoas suarem em bica, dançando entusiasticamente, principalmente músicas
populares, num ambiente que apresentava um calor intenso, e olhávamos para as
janelas, e víamos as próprias embaciadas, escorrendo, assim como as paredes
brancas do salão.
O baile no seu auge, geralmente chegava à meia
noite e meia, às vezes uma hora. A partir daí, podíamos ver os mais
entusiastas, amigos da noite, e os mais resistentes, que apenas se agüentavam
graças aos copinhos de bagaço, ou às tigelinhas de vinho tinto, servidos na
parte de baixo, na tasquinha rudemente construída, onde o Sr. Armando Duarte, e
a Dª Adelaide Lira tomavam conta
pacientemente, agüentando os discursos, as confissões e as lamúrias dos
clientes “animados” que por lá passavam.
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