Naquela época, gerou-se uma discussão, porque
o Nespereira pretendia que Carlitos- filho de Carlos Duarte- assinasse pelo
clube, mas o Cinfães ameaçava não facilitar essa aquisição!
Então, na altura, chegou-se a coagitar,
através de uma idéia de Amadeu Teixeira, que sugeriu que o Nespereira fizesse
um contrato de jogador profissional, para Carlitos, com descontos da Segurança
Social, e tudo. Só que o Cinfães facilitou, e através de um acordo particular
entre o Prof. Zezé-dirigente do CD Cinfães, e um “todo-poderoso” do futebol
distrital-e Cláudio Oliveira, o Cinfães deu a carta para Carlitos, permitindo
assim que o Nespereira pudesse incluir este jogador no seu plantel, com a
ressalva de assinar uma carta de liberação de Carlitos, com um ano de antecedência,
para fazer regressar o Carlitos ao Cinfães, caso assim o clube da sede do
concelho o entendesse. Carlitos fez a sua formação quase toda no Cinfães,
mudando apenas uma época, em que assinou pelos Iniciados do FC Porto, sendo
titular no FC Porto, deixando no “banco” Helder Postiga. Depois, voltou para o
Cinfães, e aí acabou a sua formação, jogando no clube da terra natal:
Nespereira. Era conhecido pela sua maneira de jogar explosiva, e a maneira como
rematava para os golos, maior parte das vezes de bico.
O Sr. Isidro tinha por hábito, fazer
rotatividade de dirigentes, para irem para o “banco” de suplentes, como
delegados, nos jogos dos seniores.
Eu comecei a acompanhar os jogos dos seniores,
e logo no primeiro jogo em casa, o Nespereira defrontou a equipa duriense do
Boassas, vencendo por 6-0, com golos de Celso, Mainça, Puck, Sérgio Silva
(nesta altura jogava ainda a extremo) e um “bis” de Carlitos.
Jogos desta época, que me ficaram na memória,
foi o Boassas- Nespereira, no Campo do Facho, que ficou marcado pelo regresso
de Jorge Ramalho- que esteve vários anos na Suiça- ao Nespereira FC. Na altura,
Pedro Semblano era o titular da baliza do Nespereira, mas lesionou-se após o
jogo em Lamelas, em que fez uma excelente exibição, embora não tenha conseguido
evitar a vitória da equipa do Lamelas. Durante um período de 5 jogos, Edgar
Vasconcelos foi o titular da baliza, mas a sua atuação na derrota contra o
Santacruzense, deixou sérias dúvidas a Vítor Andrade, na permanência de Edgar
na baliza. Aqui entra a perspicácia de Isidro Semblano, que enquanto o clube se
via “apertado” na baliza, o Presidente já assediava Jorge Ramalho para fazer
parte do plantel.
Voltando ao jogo de Boassas...na primeira
volta, o Nespereira cilindrou completamente o Boassas, por 6-0, no Olival.
O campo do Boassas, denominado Campo do Facho,
é um campo de dimensões pequenas. Os balneários situavam-se acima do nível do
terreno do jogo, onde o acesso a eles era feito por um corredor feito de blocos
de cimento, que faziam assim uma espécie de túnel até aos balneários. As
bancadas do campo, se encontravam a uns 8 metros de altura do terreno, mesmo
por cima dos bancos de suplente.
Sendo um “derby”, a equipa da casa demonstrou
imensa garra, e pouco a pouco foi dominando o jogo, chegando ao intervalo
ganhando por 2-0.
Mas ainda antes do intervalo, aconteceu algo
de insólito na bancada. O tempo estava cinzento, e eu estava fazendo os meus
apontamentos, quando vi o meu adepto vizinho, o Matinhas da Pertença, atender
seu telemóvel, e respondendo em tom alegre:
-Estou?...Ah!Sim!...Onde estou? Estou aqui na
terra dos cães!- referindo-se assim à Boassas. Obviamente, os adeptos locais
não gostaram do que ouviram, e rapidamente começaram a ameaçar que o iriam atirar da bancada
abaixo, sendo rapidamente resolvida a situação com a ajuda dos adeptos mais
contidos que afastaram o Matinhas dali.
Entretanto, no jogo, o Boassas ia conseguindo uma consistente
vitória, ganhando por 4-0, sendo reduzido por Toninho Mainça, que fez o 4-1
quase no final.
Mas o jogo ficou marcado por uma série de
lances mais duros existentes entre Rique e Quim Miguel, em que o jogador do
Boassas, mais explosivo ia ameaçando constantemente, e Rique apenas respondia
com os seus típicos lances mais durinhos, com entradas de carrinho, etc.
No final do jogo, os jogadores se deslocavam
para o túnel, e de repente os comportamentos aqueceram de tal modo, que foi uma
cena de pancadaria épica, em que, qualquer jogador que entrasse naquele túnel,
era fustigado de pancada, correndo aqueles 20 metros, até o largo dos
balneários, que ficou mais parecendo um ringue. Hernâni fez impor o seu enorme
físico, agarrando Quim Miguel, que se encontrava raivoso e sedento de
pancadaria, pelo pescoço, e encostou-o contra uma parede de metro e meio, e
falou-lhe claramente:
- Ou portas-te como um homem, ou vais virar
desta parede, e cais na estrada!
O árbitro encontrava-se na porta do balneário,
olhando para aquela confusão espantado, e dizendo:
- Mas o que se passa? Porque é que eles estão
assim? Eles não ganharam? Imagino se eles não ganhasse! Ia ser uma guerra!
O público encontrava-se pendurado por cima do
túnel, inflamados pela situação que assistiam, mas houve um que se saiu mal...e
muito mal: o Matinhas!
Este começou gritando o nome dos jogadores do
Nespereira, dizendo em voz alta “Dá-lhe Hernâni!Dá-lhe Rique!”, com os adeptos
do Boassas a verem o “caldo já entornado”, a agredirem o Matinhas, salvando-o a
intervenção de Carlos “Lobo”, que abraçou Matinhas, e correndo, tirou-o do meio
da fúria popular.
Jorge Ramalho era outro dos alvos da fúria dos
boassenses, devido ao seu estilo sério e corajoso, sem medo de ninguém, embora
ninguém se tenha virado contra ele. Mas recordo-me, que a esposa de Jorge
Ramalho, Teresa Ramalho, na altura, chegou perto do portão de acesso aos
balneários, e pediu-me para trazer a ela, as chaves do Mercedes CLK, que Jorge
trouxera da Suiça, temendo uma reação inconsciente do público contra Jorge,
indo Jorge Ramalho connosco, na carrinha.
Para facilitar as coisas, a GNR pediu reforço
policial, porque viu o público imenso que aguardava a saída da equipa,
ameaçando a integridade física do Nespereira. Após cerca de uma hora de espera
dentro dos balneários, a equipa saiu dos balneários, em direção às carrinhas,
cercado pelos efetivos da GNR. Apesar da presença da GNR, ainda ouviram-se
vários insultos.
Após as entradas nas carrinhas, dirigimo-nos para
casa, mas não sem antes passarmos pelo Hospital de Cinfães, para sabermos como
estava o Matinhasque foi preciso ir lá, porque necessitou de levar alguns pontos na cabeça.
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