Na época seguinte 2002/03, recordo-me de
Isidro Semblano, vir-me convidar para assumir o cargo de Secretário de Direção
do Clube, e eu fiquei entusiasmado, mas, mesmo assim, de certa forma, disse
para ele:
- Só aceito o seu convite se inscrever a
equipa feminina no campeonato em Viseu.
Ele sorriu, e afirmou que o iria fazer. Fiz de
conta que acreditei, pois eu sabia como o Sr. Isidro era uma pessoa bastante
persuasiva e convincente, e pensei silenciosamente para mim “Bom...o que ele
quer é que eu seja o Secretário da Direção, e para isso me promete que vai
inscrever, mas vai acabar por nem se lembrar”!
Após mais algumas vezes de reunião, entre ele
e eu, ele foi-me dizendo que já sentia algum cansaço, e queria preparar alguém
para assumir toda a carga burocrática do clube, escolhendo-me a mim, e
convidando-me a fazer um curso que ia haver em Viseu, da Federação Portuguesa
de Futebol, para Secretário Técnico de Futebol. Eu prontamente aceitei, e dei
conta de que a minha função seria como a de um secretário-técnico mesmo.
Nesse Verão, realizou-se a primeira Semana da
Juventude, e eu estava na organização, e num dia, que estava sentado numa das
salas de aula, da Escola da Feira, onde se encontrava a Feira do Livro, a tomar
conta do evento, recebo uma chamada do Sr. Isidro Semblano. Atendi, e
recordo-me dele me falar, um pouco em tom desanimador:
- Ercílio? Olha tenho uma notícia para ti!
Este ano vais ter muito mais trabalho!
Eu curiosamente perguntei-lhe porquê, e a sua
resposta foi esta:
- Porque eu inscrevi as “miúdas” no futebol, e
vai haver o Campeonato de Futsal, e elas vão participar!
A minha primeira reação foi de uma alegria
tal, que, não sabia se havia de rir, se havia de chorar. Só depois, quando fui
falar com o Sr. Isidro é que este me explicou quem eram os adversários, o que
se fazia, etc.
Mas a vida mete-nos em cada uma,não é? Nunca
fui jogador de futsal, não gostava de ver futsal, e acabei treinando uma equipa
de futsal. A primeira pessoa a quem dei a notícia, foi ao Daniel Vilarinho, meu
adjunto. Ele também ficou muitíssimo entusiasmado.
Entretanto começa a minha corrida para saber
mais sobre a modalidade, e muito e ajudou a Ana Sofia Teles, que me emprestou um
livro da Universidade, sobre Futsal; e a Mariana Santos, que na altura
trabalhava na Junta de Freguesia, num departamento da Câmara Municipal lá
instalado, que rapidamente, me arrumou o
regulamento de utilização do Pavilhão Municipal Armando Costa.
Entretanto, Isidro Semblano começou a preparar
a época seguinte (2002/03), e então surge um novo contratempo nos planos de
Isidro Semblano- e nos meus também!
Daniel Vilarinho, ainda júnior, demonstrou
interesse em se transferir para o Gondomar, após ter treinado lá, e o Gondomar
também ter demonstrado interesse no jogador. Só que, Isidro Semblano, após
reunião com a Direção, decidiu não aceitar esse pedido de transferência,
tentando utilizar os mesmos argumentos que foram utilizados com o Sergito, na
altura que o Ac. Fornelos pretendia o jogador.
Daniel Vilarinho era um central bastante
eficaz, e muito bom nas marcações, e Isidro Semblano pretendia aproveita-lo
para a equipa sênior. Mas após a notícia
da recusa, Daniel Vilarinho decidiu não jogar pelo Nespereira, como protesto
contra a decisão diretiva.
Só que aqui entra o meu debate! Revoltado com
o fato, Daniel Vilarinho recusava ativamente jogar pelo Nespereira FC, só que
ele era o meu adjunto na equipa feminina, e, após uma conversa minha com ele,
ele aceitou continuar a me ajudar a treinar as “miúdas”. Só que, quando fui
pedir a Isidro Semblano para inscrever Daniel Vilarinho como dirigente do
clube, a resposta que recebi foi esta:
- Não posso Cilo...o Daniel sabe bem que, se
quiser continuar aqui, tem que jogar aqui! Para inscreve-lo, ele tem que parar
com essa birra!
Como conhecia o Presidente, eu sabia que ele
era uma pessoa bastante decidida, e não ia adiantar de nada tentar debater a
idéia do Sr. Isidro. A mim, nada mais me restou, senão dar a notícia ao Daniel,
de que ele não ia poder ser o meu adjunto, por causa de um diferendo
completamente à parte da situação em causa, e que acabou por me prejudicar. Mas
mesmo assim, Daniel Vilarinho não deixou de me dar apoio, e sempre acompanhou atentamente
a progressão da equipa feminina.
Voltando à gestão, Isidro Semblano,
demonstrava imenso entusiasmo na época que se avizinhava, e então resolveu
inscrever o Nespereira nas seguintes categorias, na AF Viseu: 2ª Divisão
Distrital- Zona Norte; Taça Sócios de Mérito; Infantis, Iniciados, Juvenis,
Júniores, Futsal Feminino. O Nespereira FC era o clube, sem ser concelhio, que
mais votos tinha na AF Viseu, nessa época.
Após isto, o próprio presidente assumiu a
função de treinador do Nespereira FC.
O primeiro jogo que o Nespereira teve nessa
época, foi contra o Lobanense, em casa, para a Taça, e que o Nespereira venceu
por 3-0.
Jogos para recordar dessa época, tem a
deslocação de Nespereira a Moimenta da Beira. Moimenta da Beira apresentava-se
como uma das equipas candidatas à subida de divisão, e ainda não tinha perdido
um único ponto. Isidro Semblano, que costumava jogar em 4-4-2, dessa vez, optou
por jogar em 4-5-1, com Carlitos a ser o único atacante, e pedindo para Quim
vir apoiar a defesa, do lado direito, até porque era a estréia do
“inexperiente” Rui Teles como titular, principalmente a jogar a defesa direito.
O Nespereira marcou a meio da primeira parte,
através de um contra-ataque de Carlitos, indo para o intervalo a ganhar por
1-0. No ínicio da segunda parte, o Moimenta da Beira empatou o jogo, e começou
a pressionar imenso, mas com o Nespereira a defender muito bem, com Hernâni e
Nuno Cardoso em evidência, durante o jogo todo. Então, numa jogada de
contra-ataque, pela direita, Sérgio Silva cruza a bola, e Vítor Andrade
apareceu no segundo poste marcando o 1-2, explodindo de alegria o “banco”
nespereirense. O Nespereira recuou, e a partir daí, conseguia defender muito
bem, e o tempo ia passando, aumentando a fúria do público do Moimenta da Beira.
Numa determinada situação, Isidro Semblano resolve tirar Rui Teles, e faz
entrar José Júlio. Na saída de Rui Teles, um senhor já de certa idade, com um
capacete na mão, acompanha-nos desde o meio de campo até ao nosso “banco”, a
insultar o Rui Teles, e ameaçando, mas com o Rui Teles impávido e sereno, sem
ligar ao que o adepto dizia. Nessa altura, ele encostou-se ao nosso “banco” e
continuou a insultar, só que desta vez, o “banco” inteiro. Eu, numa tentativa
de acalmar os ânimos, dirijo-me ao senhor, e digo-lhe:
- Ó meu senhor! Não há necessidade disso! Não
precisa se exaltar assim.
Mas, o homem não me deu ouvidos, e começou a
me insultar, só que eu com o meu jeito às vezes destemido, respondi para o
senhor:
- O senhor podia ter mais juízo na
cabecinha...já tem idade!
Maldita hora que abri a boca! De repente, vejo
uma multidão que estava encostada à grade, deslocar-se em direção ao banco, e
nos fazer passar cerca de 15 minutos debaixo de insultos constantes.
Voltando ao jogo, mesmo no final, já em tempo
de descontos, num pontapé de canto, o Moimenta da Beira empata o jogo, evitando
a derrota em casa.
No final, já na saída do campo, um dos
jogadores do Moimenta da Beira se dirigiu a mim, encostou o dedo à minha cara,
e ameaçou-me, chegando depois vários outros jogadores do Moimenta da Beira, que
me cercaram, e de repente senti um impacto na minha cabeça, que foi o
guarda-redes do Moimenta da Beira, que me agrediu, com um soco na parte de trás
da cabeça. Fui salvo pelo Puck, que entrou no meio da confusão, e me retirou
dali empurrando-me para fora! Nos vários anos que estive no futebol, foi a
única vez que me agrediram! Ainda tentei falar com o árbitro, que assistiu a
tudo, mas este negou ter visto algo! Esta foi a minha primeira lição para o
futebol distrital: Em caso de confusão, ali prevalece a lei da selva! Vence o
mais forte! Não vale a pena tentarmos recorrer às autoridades, como a
arbitragem para resolver uma situação deste gênero.
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